quinta-feira, dezembro 23, 2004

Mater Dolorosa

Tenho uma grande constipação.
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor,
O que fui outrora foi um desejo, partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando…
Não estarei bem se não me deitar na cama,
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu…Que grande constipação física!
Preciso de verdade e de aspirinas.*


Tivesses tu experimentado, ó Álvaro, juntar a esta nossa grande constipação uma dor de dentes implicativa, predatória e fina e terias podido dizer comigo:
"Hoje somos verdadeiramente seres menores, precisados de um corpo alternativo. Um corpo feroz que nos devore a dor ainda que, de caminho, nos devora a nós. Nem a mais melíflua das mentiras, nem a mais pura morfina, fará da verdade que pediste, em pondo-se-lhe uma dor de dentes em cima, o que quer que seja. Aspirinas?Drosts brancos servidos de bandeja!".


*Ficções do Interlúdio/Álvaro de Campos

terça-feira, dezembro 21, 2004

O (Re)sentimento de uma Ocidental (3)


...Assim, ao terceiro nível da nossa questão, estaríamos de facto diante de um vício do pensamento ocidental, subsistindo a impossibilidade de enquadrar num raciocínio ético puro um direito que é, malgré soi, de natureza política (e de uma natureza tão mais política e tão mais próxima do direito natural, quanto esse princípio se inscreve no quadro dos direitos de uma Sociedade Internacional que vive nas imediações do "estado de natureza") e que não traduz afinal e paradoxalmente (começando, como começou, com o propósito de inverter essa ordem) senão a relegitimação do exercício do direito do mais forte sobre o mais fraco.
Mas seria assim tão imprevisível que se desse esta inversão de lógica, num contexto em que coabitam, entre outros, as Opiniões Públicas, as ONG, as Organizações Internacionais e os Estados-Nação? Os egoísmos dos Estados e as suas éticas do poder por um lado, e os altruísmos dos movimentos da sociedade civil, por outro? A racionalidade e o moralismo de Estado da alínea 7 do artigo 2 da Carta das Nações Unidas e a utopia assistencialista da Resolução 688? Os mecanismos da regulação automática da vida e os de negociação?
Este novo "direito de olhar" não nos permitirá, afinal, muito mais do que isto: verificar que o mapa das ingerências não traduz, não coincide com a cartografia dos atentados aos direitos do Homem (e poderá alguma vez coincidir?) e levar-nos a suspeitar de um déjà vu da velha geografia expansionista de um sistema que os mais fortes entendem como o melhor e que - apresentando-se hoje com as mais nobres bandeiras - se impõe, como ontem, pela mais básica das razões: a da sua própria sobrevivência.
Resta saber se a imposição deste software ideológico que é a democracia não se revelará ainda mais perniciosa do que a dos hardwares dos velhos impérios, sobretudo se acreditarmos que estamos a assistir, de uma forma abrupta, à mais complexa e à mais absurda das colonizações: a das mentalidades.
Será, então, ainda necessário explicar porque se sentem agradecidos os que sofrem a ingerência, para logo a seguir se declararem abusados com a permanência e finalmente enganados com a partida?

Afinal, por mais honrados que sejam os caminhos, os que os abriram e os seus propósitos, eles parecem acabar por servir sempre a todos os caminhantes e sobretudo aos mais velozes e aos mais resistentes.