sexta-feira, março 17, 2006

Álvaro dos Campos


Faz qualquer coisa!!!
Diz!
Deixa que o turbilhão te consuma, mas te consuma de vez! Brinca às casinhas, pois. Mas fá-lo como se toda a casa ardesse e tivesse alma e houvesse que a lavar, que a esfregar e desinfectar e expurgar antes do fogo, antes de se apresentar a Deus. E põe, repõe, recompõe o lugar das coisas, experimenta à direita, corrige para a esquerda, centraliza as laterais, rectifica a lógica, muda os móveis, porra, MUDA OS MÓVEIS!!! Depressa, em delírio, muda tudo até que fique tão perfeito, mas tão perfeito que pareça uma puta de uma obra de arte, tão contemporânea, tão extemporânea, tão estuporadamente viva como esta vida devia ser! Mais depressa, mais rápido, mais fundo, mais forte, mais forte!!!MUDA, PORRRAAA!!!!Até que te saltem das mãos os móveis e os púcaros e as telas e os livros e a bibelotagem desate a voltejar, a auto-criticar a posição e a ordem, a procurar sozinha o não lugar que é o movimento. Até que te saltem das mãos as mãos, MUDA!!!!Depressa, para que o grande Esteta perceba, das cinzas que fiquem do fogo, a porra da tua alma-pó.

Pronto. Já disse.
Percebeste? Já disse!!!

Como um traço tremendo a galope nos dias


Tenho para ti uma frase
suspensa nos dias
encharcada
como uma toalha num estendal
de Inverno

Tenho uma frase de peso para ti
entalada no tórax e inquieta
como uma criança
no momento da festa,
na hora de querer ter tudo, ser tudo, já.

Tenho, sinuosa e para ti, uma frase
como um traço tremendo
da dúvida à incerteza da dúvida.
Uma frase obscura como um homem
que se sonha em carne montado
numa égua e que grita:
IOOOOHHHH!!!!!!IOOOOOHHHHHH!!!!
IIIOOOOOHHHH!!!!!IOOOHHHHH!!!!
IOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!

Tenho uma frase para ti
a galope nos dias
entalada nas dúvidas
suspensa nos sonhos
Uma frase que é
(como quem diz uma festa)
hipermobilidade de desejos
expostos
nesta grande superfície infernal
que sou eu.

Empate técnico




O telefone tocou. Três vezes. E ela pensou em nem pensar em atendê-lo. Era um jogo de resistência: o telefone a tocar a 4ª vez, a 5ª e ela agarrada à linha do livro, tantas vezes quantas o telefone tocasse. Até a linha do livro não fazer qualquer sentido e o toque do telefone também não. Como um empate técnico.